quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O que fazer quando não se deveria fazer nada

O que fazer quando sentimos uma vontade louca de romper as amarras da reserva, do pudor pessoal, da intimidade controlada, do não propício a ver a luz do dia e, não suportando mais a tentação, abrimos a boca e entregamos, de graça, todos nossos segredos, gostos,desejos, sonhos e conquistas ao primeiro bandido que aparece? Seja vestido de desconhecido ou falso e solícito amigo? Ou até mesmo aquele colega de infância que você não vê ha 30 anos. Por que o encontra e se abre assim, tão sorridente, com olhos de criança?
Pessoas mudam. Na nossa frente e às nossas costas. Antes de nos conhecerem, enquanto falam conosco e no breve instante de um tchau cheio de calor humano.
Calor.
A traição também é quente. E a inveja. O mau-olhado. Todos quentes. Ferventes. Borbulhando no fogo alto do desejo proibido, na vontade do alheio, na mesquinhez de ser e ter o melhor.
O que fazer então quando as novidades vêm à boca e esbarram nos dentes?
Deveríamos gritar de nervoso e surpresa e sair correndo até mergulhar no mar. Piscina também serve. Ou lago. Rio. Poça. O importante é afogar as palavras. Não permitir que as pobres inocentes se tornem armas afiadas demais para nossa pouca armadura. Frágil e inútil proteção à maldade do mundo. Do que existe sob o mundo já que o infeliz até hoje não entende o porquê de seu eixo ser inclinado desse jeito.
Aprumemo-nos então e mãos à boca.
Masque chiclete, cante uma canção, recite um poema, conte até mil em voz alta, mesmo que pareça loucura.
Melhor passar por doida que se arrepender depois.

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