sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Meus mortos

Meus mortos me acordam sempre em espanto.
Tocam meus olhos e falam, sem palavras, que tudo é pequeno e cabe na palma da mão.
Meus mortos dizem por tantos meios diferentes que o único que não se perde é o amor.
Esse, que assume todas as formas, todos os contornos e transborda nas camas, nos quartos, nas salas, casas, profundezas, imensidões.
O único que não se perde.
Porque o resto sempre terra será. Jamais semente.
E meus mortos, meus mortos não mentem.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Tua imagem

Assim fica tua imagem no meu corpo: riscada nas costas em traços vermelhos. Na ardência do sexo. No suor que não seca.
Assim fica feito mancha, marca, cicatriz, tatuagem. Desenho que se faz nas manhãs. Nas noites insones. Nas palavras não escritas.
Assim fica tua imagem no meu corpo: como dor, caminho, travessia.
A me gritar todo dia: VAI.

Pergunta-me sempre

Pergunta-me sempre: o que sente pelo amor? Como se o amor fosse seu nome, sua identidade, a forma como lhe vejo, sinto, possuo.
À tarde e à noite outra vez pergunta-me: sentiu falta do amor? Como se o amor fosse sua presença, seu andar pela casa, o movimentar suave de seu corpo sobre o meu, o calor que me faz sentir em plena madrugada, lua alta no céu, nossos braços e rostos sublinhados pela luz de fora.
Essa forma de querer saber sobre o amor é o que dá sentido ao jeito que olha as coisas, toca os objetos, folheia meus tantos livros.
E mesmo sabendo que sempre pergunta, é a surpresa que me abraça quando me segura a mão e sussurra: E o amor, como vai?
E quase respondo, sorriso nos lábios, que ele não vai a lugar algum já que está à minha frente, a tocar com seus longos dedos a palma de minha mão e o espaço inteiro de meu coração.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O que fazer quando não se deveria fazer nada

O que fazer quando sentimos uma vontade louca de romper as amarras da reserva, do pudor pessoal, da intimidade controlada, do não propício a ver a luz do dia e, não suportando mais a tentação, abrimos a boca e entregamos, de graça, todos nossos segredos, gostos,desejos, sonhos e conquistas ao primeiro bandido que aparece? Seja vestido de desconhecido ou falso e solícito amigo? Ou até mesmo aquele colega de infância que você não vê ha 30 anos. Por que o encontra e se abre assim, tão sorridente, com olhos de criança?
Pessoas mudam. Na nossa frente e às nossas costas. Antes de nos conhecerem, enquanto falam conosco e no breve instante de um tchau cheio de calor humano.
Calor.
A traição também é quente. E a inveja. O mau-olhado. Todos quentes. Ferventes. Borbulhando no fogo alto do desejo proibido, na vontade do alheio, na mesquinhez de ser e ter o melhor.
O que fazer então quando as novidades vêm à boca e esbarram nos dentes?
Deveríamos gritar de nervoso e surpresa e sair correndo até mergulhar no mar. Piscina também serve. Ou lago. Rio. Poça. O importante é afogar as palavras. Não permitir que as pobres inocentes se tornem armas afiadas demais para nossa pouca armadura. Frágil e inútil proteção à maldade do mundo. Do que existe sob o mundo já que o infeliz até hoje não entende o porquê de seu eixo ser inclinado desse jeito.
Aprumemo-nos então e mãos à boca.
Masque chiclete, cante uma canção, recite um poema, conte até mil em voz alta, mesmo que pareça loucura.
Melhor passar por doida que se arrepender depois.